Sobrevivente Designado: o homem que não queria ser presidente

ESPECIAL REVIEWS DO BAÚ. Kiefer Sutherland pode ter-se despedido de Jack Bauer, a mítica personagem de «24», mas volta a ter de salvar o mundo. A Netflix comprou os direitos internacionais de «Sobrevivente Designado» em 2016, emitindo um episódio novo por semana em Portugal.

Kiefer Sutherland

Permitam-me que comece este texto com uma história verídica. Em 2016, numa conversa de café entre amigos, um deles lançou para a conversa um tópico praticamente desconhecido para mim: a existência, nos Estados Unidos, de um “sobrevivente designado”. A premissa era intrigante: o que aconteceria se, no discurso anual do Estado da Nação, que reúne o Governo, Congresso e Supremo Tribunal, um atentado trágico provocasse a morte de todos os presentes? A ideia teria certamente potencial para um livro… Não fosse, meses depois, David Guggenheim transportar o conceito, aparentemente burocrático, para um novo nível com «Sobrevivente Designado», que trazia consigo um dos melhores elencos na televisão.

“O que é um sobrevivente designado?”. Ao ser informado das funções que desempenhará nessa noite, Tom Kirkman (Kiefer Sutherland) faz uma pergunta que, certamente, também passou pela cabeça de muitos espectadores. Embora parta de uma possibilidade bastante inusitada, a nova série da ABC tem como epicentro um cargo bem real. Na noite do discurso do Estado da Nação, que reúne as principais figuras políticas do país no Capitólio, é escolhido um elemento do Governo para faltar ao evento e ficar em segurança num local secreto. Na eventualidade de uma catástrofe, que resulte na morte de toda a linha de sucessão antes dele, o “sobrevivente designado” assumirá então as funções de Presidente dos Estados Unidos.

Sobrevivente Designado

Há, logo no início, uma frase de Alex Kirkman (Natascha McEhlone) que parece prenunciar a tragédia. Quando Tom engana a filha ao telefone, com o objetivo de a convencer a dormir, a mulher – futura primeira-dama – frisa que ele não deve fazer promessas que não pode cumprir. Aparentemente inocente, este conselho ganha uma nova dimensão quando, na sequência de um ataque terrorista, o simples  secretário do Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano [na sua tradução literal] é promovido a Presidente. Não obstante, o plano do Capitólio em chamas é sucedido por um recuo de 15 horas, no qual descobrimos que Tom se preparava para ser “transferido” para uma embaixada. O equivalente político a ser despedido.

Não é portanto de estranhar que, pouco depois do juramento de Tom Kirkman, já se façam ouvir as vozes de descontentamento na Casa Branca. Seth (Kal Penn), um dos responsáveis pelos discursos presidenciais, partilha a sua revolta com Tom, ainda que não saiba que é este que se encontra num outro cubículo da casa de banho. Ao sair, é confrontado pelo novo Presidente, que, apesar das diferenças, o desafia a escrever o seu primeiro discurso. No polo oposto, a única pessoa aparentemente determinada a apoiá-lo incondicionalmente é Emily Rhodes (Italia Ricci), o seu antigo braço-direito no Departamento.

Sobrevivente Designado

Em paralelo, somos colocados – um pouco tarde de mais, talvez – nos escombros do Capitólio, onde a agente Hannah Wells (Maggie Q.), a lidar com o possível desaparecimento (ou até morte) de alguém, analisa o sucedido, ainda que não fosse suposto estar ali. Este núcleo, ainda praticamente desconhecido para o espectador, será certamente muito importante na investigação do ataque, o mais devastador desde o 11 de Setembro. Com os principais grupos terroristas a negarem a autoria do ataque, começa-se a questionar quem serão os verdadeiros culpados e, mais perto do final do episódio piloto, Hannah lança uma teoria: se os culpados não se acusaram, é porque o seu plano ainda não foi concluído. O drama político vê reforçado, assim, o teor conspiratório inerente a «Sobrevivente Designado», ao mesmo tempo que Tom também é ameaçado, em segredo, por figuras militares proeminentes, que não o querem na principal cadeira de poder.

Por seu lado, e voltando um pouco atrás, os EUA também saem culpabilizados desta equação, sendo que o país não é retratado unicamente como uma vítima, mas como uma potência capaz de dar uma resposta igualmente catastrófica. Assim, e já depois de Tom ser “presenteado” com a capacidade de fazer explodir bombas de destruição maciça, reúne-se com o Embaixador do Iraque para o desencorajar, uma vez que o Conselho de Estado teme que o seu país aproveite a fraqueza para os atacar – e tem provas dessa possibilidade. É aqui que entra um novo Tom Kirkman, e um Kiefer Sutherland ao nível a que já estamos habituados. Ao jeito de um Clark Kent dos tempos modernos, o Presidente tira os óculos e, determinado, mostra-se intransigente e exige ao embaixador uma resolução rápida para evitar o conflito.

Sobrevivente Designado

Partindo de uma ideia bastante promissora, «Sobrevivente Designado» sai reforçada por um elenco verdadeiramente de luxo. Deste modo, o argumento, competente, dá primazia ao discurso ao invés da ação propriamente dita, aproveitando a principal mais-valia que tem ao seu dispor. De igual forma, a narrativa flui com clara naturalidade, transpondo o lado político da discussão para encontrar o humano, sem que em momento algum um dos lados se anule. O principal ponto fraco da série, ainda que não seja uma falha evidente, terá de ser a apresentação do clima pós-ataque, no terreno, onde apenas Maggie Q. se destaca. Os acontecimentos, mais focados na personagem do que na dimensão da tragédia, acabam por fazer com que este episódio seja ligeiramente desequilibrado, uma situação que terá certamente margem para ser invertida nos próximos episódios.

Desengane-se, no entanto, quem acha que estamos perante uma ideia nova em televisão. Em 1990, o filme televisivo «Aos Primeiros Clarões da Aurora», da HBO, colocou o secretário do Interior no comando dos destinos do país, enquanto a série «Os Homens do Presidente» explorou, logo na sua primeira temporada, o papel do “sobrevivente designado” num dos seus episódios, onde é retratado o discurso do Estado da Nação. Não obstante, nenhuma delas foi tão longe como David Guggenheim.

 

Esta review foi originalmente publicada na Metropolis em 2016.

 

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