Mundos Paralelos: o caos está instalado… e a profecia?

A série «Mundos Paralelos», inspirada na saga His Dark Materials de Philip Pullman, regressa amanhã à HBO Portugal. A imprensa teve acesso antecipado aos primeiros cinco episódios (de um total de sete, a serem lançados semanalmente).

Mundos Paralelos His Dark Materials

A personagem de Dafne Keen, Lyra (antes Belacqua, agora Silvertongue), é o reflexo da esperança num universo dominado pelo caos em «Mundos Paralelos» [His Dark Materials no original], uma colaboração conjunta da HBO e da BBC. Protagonista de uma profecia agora em andamento, tem de agir sem conhecimento da importância que lhe foi destinada.

Depois do final chocante da primeira temporada, que culminou com a passagem de Lord Asriel (James McAvoy) para um “mundo paralelo” e com Lyra a seguir no seu encalço, a profecia anunciada pelas Bruxas ganha nova força e mais relevo na trama. O desfecho da T1 acompanha a premissa dos livros de Philip Pullman, ao contrário do que tinha acontecido no filme «A Bússola Dourada» (2007), que optou por um final em aberto e mais risonho para o melhor amigo de Lyra, na expetativa de continuar a narrativa numa sequela que nunca aconteceu.

Photo : Copyright © Simon Ridgway, 2019

Quem também partiu à descoberta de novos mundos foi Will Parry (Amir Wilson), uma personagem que já percebemos ser de suprema importância para a narrativa. Assim como o seu pai, o coronel John Parry (Andrew Scott), cujo desaparecimento foi um dos temas centrais da temporada inicial. Will e Lyra acabam por encontrar-se cedo na localidade que Asriel via nos céus, um espaço entregue à destruição, uma vez que os adultos são vítimas de figuras sombrias e misteriosas, que pairam pela cidade e deixam as crianças abandonadas à sua sorte. Entre o novo elenco destaca-se Bella Ramsey, que conquistou os fãs de «A Guerra dos Tronos» como Lyanna Mormont.

A segunda temporada de «Mundos Paralelos» assume uma estrutura diferente da primeira. Um ritmo mais lento, discursos mais densos e uma maior complexidade dos seus intervenientes principais, que passam a ter uma existência além de Lyra – ainda que continuem a ter a sua segurança como prioridade. A ação assume um contorno mais literário, demorado, sendo que as dúvidas vão dando lugar a respostas mais concretas. Exemplo disso é a intervenção de Carlos Boreal (Ariyon Bakare) na história, com os seus interesses a serem cada vez mais desmascarados; ou o alcance das Bruxas, com especial destaque para Serafina Pekkala (Ruta Gedmintas).

Mundos Paralelos His Dark Materials

Os dois lados do confronto de «Mundos Paralelos» são também mais evidentes do que nunca. De um lado, o Magistério que promove o cumprimento das regras impostas pela Autoridade, do outro lado todos os que procuram o livre-arbítrio e a possibilidade de uma realidade livre das amarras ditatoriais deste órgão. E, se a natureza do primeiro lado é clara, o segundo não representa necessariamente o Bem, sobretudo devido a atitudes muito questionáveis, nomeadamente por parte de Asriel. É uma espécie de lado “menos mau”. Mas qual o preço a pagar pela liberdade?

Marisa Coulter (Ruth Wilson) apresenta-se como o “joker” desta equação, sem um lado definido e com ações que provocam desconforto a todos os lados em confronto. Embora não seja uma personagem consensual – assim como, ironicamente, acontece com a atriz que lhe dá vida –, Coulter é sem dúvida um elemento crucial para a narrativa de «Mundos Paralelos» e para a consolidação do caráter de Lyra. Mais consenso encontra Lee Scoresby (Lin-Manuel Miranda), um dos intervenientes a crescer de importância na trama.

Mundos Paralelos His Dark Materials

«Mundos Paralelos» reforça a sua presença entre as sagas a acompanhar em TV no momento, ainda que longe de outros sucessos da HBO como «A Guerra dos Tronos». A narrativa é coesa e o regresso marca a passagem da luta contra o incerto para uma luta bem mais explícita – e difícil. Não obstante, o maior desafio continua a ser o mesmo: a representação dos daemons, uma espécie de projeção animalesca da alma e dos pensamentos das personagens do mundo de Lyra. A sua presença acontece muito à superfície e com a passagem para outras realidades, acabam por sair ainda mais prejudicados. Muito importantes nos livros, continuam à procura de justiça na tela.

No elenco, além dos já mencionados, destacam-se Jade Anouka, Will Keen, Simone Kirby e Sean Gilder, entre outros. A temporada, antes pensada para oito episódios, vai ter menos um do que o esperado. O impacto da Covid-19 também se fez sentir na série, com o episódio dedicado a Asriel a ser totalmente cortado da edição final.

 

Texto originalmente publicado aqui

 

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