Losing Alice: algo se ganha, tudo se perde?

A série israelita «Losing Alice» é a mais recente adição ao catálogo da Apple TV+. Tive acesso à temporada completa do drama protagonizado por Ayelet Zurer, cujos três primeiros episódios ficaram disponíveis ontem no streaming.

Losing Alice

É difícil perceber, ao certo, para onde caminha «Losing Alice», antes dos minutos finais. A ação pode significar tudo e coisa nenhuma, as verdades podem ser absolutas ou mera ilusão, os envolvidos podem ser, ao mesmo tempo, heróis e vilões, vítimas e perpetuadores. Entre flashbacks e flashfowards, «Losing Alice» nunca nos dá certezas absolutas, o que se torna um desafio para o espectador que, ao longo da narrativa, se tenta posicionar.

Tudo começa quando a realizadora Alice (Ayelet Zurer) encontra Sophie (Lihi Kornowski) numa viagem de comboio. O desconforto das perguntas, nomeadamente da pausa na carreira de Alice — perante alguém que tenta começar —, deixam a protagonista imediatamente perturbada. E esta dinâmica, nem sempre direta, resulta numa consequência que, ao longo de «Losing Alice», se torna cada vez mais percetível e também drástica. Mesmo que aconteça, maioritariamente, a um nível “cerebral”.

Antes de mais, Sophie contribuiu para a escolha de David (Gal Toren), o marido de Alice, como protagonista do primeiro filme que escreveu, Room 209, considerado bastante promissor. Tanto ele como Alice ficam maravilhados com a história.

Losing Alice

Mas a carreira de David, ao contrário de Alice, nunca teve de parar por causa dos filhos. Uma clara desvantagem no relacionamento que, mesmo não sendo verbalizada, é um factor de destabilização para o casal. Um espelho dos restantes pares que os rodeiam e que, da mesma forma, estão longe de ser felizes.

«Losing Alice» é uma viagem intuitiva, com a protagonista a conduzir o espectador, bem como o que a rodeia. Quem foge ao seu controlo é Sophie, sempre presente, sempre instável, sempre um problema e uma solução. É certo que a dualidade se torna, a espaços, uma obsessão, mas não somos tidos nem achados na resolução da trama. Pensamos porque Alice assim nos leva a pensar, questionamos porque Alice também questiona. A espaços, até somos levados a testemunhar o seu desconforto. E, tal como a personagem principal e o nome da série assim indica, também — enquanto audiência — nos perdemos.

Losing Alice

Toda a criação exige um sacrifício, diz Alice a certo ponto, confirmando a premissa em que vive a sua história. À medida que a sua vida profissional melhora, assim a vida pessoal se revela mais caótica. Não só pela dificuldade em gerir o tempo, mas também pelos intervenientes secundários, como a sogra (Chelli Goldenberg) ou o vizinho (Yossi Marshek), que parecem chamar a si um papel que, à partida, não seria seu.

Um drama subtil, mas que vai ganhando densidade episódio após episódio, até desvendar o seu truque. Trata-se de uma criação de Sigal Avin, que também assume a realização.

 

Texto originalmente publicado aqui

 

 

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