O regresso de Sabrina: o prenúncio de um Salem que não fala

Uma das protagonistas mais queridas da década de 90 está de regresso ao pequeno ecrã, esta sexta-feira, 26, pela mão da Netflix. Opinião sobre «As Arrepiantes Aventuras de Sabrina» originalmente publicada na Metropolis.

As Arrepiantes Aventuras de Sabrina

Não foram precisos muitos minutos de «As Arrepiantes Aventuras de Sabrina» para surgir uma dúvida que se anunciava inevitável: será a abordagem da Netflix demasiado jovem, ou serei eu demasiado velha para me deixar encantar pelas desventuras de Sabrina Spellman? Do mesmo criador de «Riverdale», Roberto Aguirre-Sacasa, o novo original do serviço de streaming oferece um olhar renovado, mais gore e longe do humor de «Sabrina, a Bruxinha Adolescente», que marcou os serões de muitas famílias portuguesas no final da década de 90 e também na seguinte. A base da narrativa são as comics lançadas desde 2014, e que oferecem uma visão bem mais negra à história da personagem que apareceu pela primeira vez nas comics em 1962.

Na história recente da TV, séries como «Diários do Vampiro», «The Magicians» e «Teen Wolf» – assim como a já mencionada «Riverdale», que “fica” do outro lado do rio (crossover à vista?) – têm alterado a relação da audiência com o género de fantasia/sobrenatural. As narrativas são suportadas por conteúdos mais sombrios, violentos e as personagens têm de lidar com problemas mais “adultos”, ainda que sejam tradicionalmente mais jovens e imaturas. A comédia deixa de ser o fio condutor da trama, para dar lugar a incursões pelo drama, pelo mistério e até pelo terror soft.

As Arrepiantes Aventuras de Sabrina

Mas vamos ao que realmente importa. «As Arrepiantes Aventuras de Sabrina», que têm Kiernan Shipka – nascida três anos depois da estreia da precursora – como protagonista, trazem um contexto diferente a uma personagem que julgávamos conhecer. Aproxima-se novamente o 16º aniversário de Sabrina Spellman, mas desta feita ela não vive no desconhecimento: Sabrina sabe que se aproxima a cerimónia de “batismo”, na qual terá de acolher o seu papel de serva do Diabo e abandonar a sua vida de humana. A iminência deste acontecimento solene é acompanhada pela apresentação das personagens, nomeadamente os dois núcleos que marcam a sua rotina: a família de bruxos – as já conhecidas Zelda (Miranda Otto) e Hilda (Lucy Davis) e o primo Ambrose (Chance Perdomo), introduzido na nova série – e, do outro lado, o namorado (Ross Lynch, o Austin de «Austin & Ally», longe da figura de trapalhão eternizada por Nate Richert) e demais amigos.

A alteração mais chocante de «As Arrepiantes Aventuras de Sabrina» está, ainda assim, em algo tido como “sagrado”: o inigualável Salem, que não fala… Mas será que já nada está a salvo? Embora queira marcar pela diferença, ainda que a espaços pareça uma caricatura da série dos anos 90, a série corta com algo que os fãs podem não ser capazes de perdoar. O humor sagaz do felino é substituído pelo de Ambrose, uma personagem que destoa do duo de tias já bem conhecido, onde se evidencia o talento de Miranda Otto e a habitual rivalidade das irmãs Spellman. Estaremos perante um caso de “primeiro estranha-se, depois entranha-se“?

As Arrepiantes Aventuras de Sabrina

A entrada de Sabrina na vida de bruxa tem bem menos piada do que aquela que foi experienciada pela personagem de Melissa Joan Hart, que ocupou o pequeno ecrã durante sete temporadas, num total de 163 episódios. Há uma componente feminista e social mais marcada, com o Diabo a retirar a independência e a capacidade de escolha a Sabrina, com a entrada num sistema sustentado pelo patriarcado e com homens nos principais lugares de poder. Da mesma forma, é também um drama social, com problemas que vão do sobrenatural ao mundano, como o bullying, a afirmação da identidade na adolescência e os tradicionais dramas escolares. Menos cómica e com uma narrativa mais “adulta” na sua essência – ainda que mais colada às séries juvenis que têm habitado a TV –, «As Arrepiantes Aventuras de Sabrina» pode dividir a audiência em relação à sua qualidade, mas uma coisa é certa: ficamos cá com uma vontade de rever a série criada Jonathan Schmock e Nell Scovell em 1996

 

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