Julia: a revolução da culinária na TV americana

Julia Child é a protagonista da nova aposta da HBO Max, «Julia», que recupera o nascimento do fenómeno literário e televisivo, numa altura em que a “caixinha mágica” ainda dava os primeiros passos. Depois de Meryl Streep, Sarah Lancashire é Julia e enfrenta o difícil desafio de fazer esquecer a atriz.

Julia

Um livro de culinária, coescrito por Julia Childs (Sarah Lancashire), está a revolucionar as casas norte-americanas. Com receitas de simples execução mas muito saborosas, a mulher tem um impacto significativo na vida familiar de conhecidos e desconhecidos, acabando por captar a atenção de uma produtora de TV, Alice (Brittany Bradford). A sua postura pouco usual no programa literário para o qual é convidada, onde conquista a audiência com a sua espontaneidade, não só a transforma no tema do momento entre amigos e vizinhos, como desperta em Julia a vontade de regressar ao pequeno ecrã.

Sarah Lancashire concretiza, com distinção, a imagem de Julia Childs – a voz, a postura, a irreverência –, embora não faça esquecer a boa performance de Meryl Streep (algo impossível logo à partida). A atriz consegue estabelecer uma boa química com atores como David Hyde Pierce e Bebe Neuwirth, conquistando também pelas relações de Julia Child. Por sua vez, a história é igualmente cativante, ao mostrar a inovação presente num programa de culinária, algo atualmente banal na programação televisiva e canais temáticos.

Julia

Numa época em que a mulher devia ficar em casa apenas para servir o marido e os filhos, Julia revela, na série, uma astúcia apurada, ao conseguir inverter todas as situações para que o marido (Pierce) se sinta no controlo. Da mesma forma, é estabelecido um paralelismo entre Julia e as mulheres que conhece – as realizações pessoais, a felicidade ou infelicidade no casamento, a liberdade ou falta dela, e a inexistência de um poder de decisão feminino e, consequentemente, a importância do feminismo. Os traços da sua vida são também os da sociedade em que viveu, com outra mentalidade e muitos limites impostos, que nem por isso travaram as suas ambições.

«Julia» é uma narrativa solta e incisiva, que alimenta o imaginário de Julia Child, bem como a sua ascensão na literatura e na televisão, tendo uma grande importância na culinária das casas norte-americanas. A série tem, no total, oito episódios e é uma criação de Daniel Goldfarb, produtor de «A Maravilhosa Sra. Maisel».

 

Texto originalmente publicado aqui

 

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