Walker: reboot só tem o nome do êxito de Chuck Norris

Estreia daqui a pouco, às 22h10, no TVCine Action, a nova aposta do canal: «Walker», protagonizada por Jared Padalecki, um dos irmãos Winchester de «Sobrenatural».

Walker
Walker — “Tracks” — Image Number: WLK107b_0320r — Pictured (L-R): Lindsey Morgan as Micki Ramirez and Jared Padalecki as Cordell Walker — Photo: Rebecca Brenneman/The CW — © 2021 The CW Network, LLC. All Rights Reserved.

Não costumo ver regularmente séries com os meus pais, mas, desde que me lembro, «Walker» [o original de Chuck Norris] era uma delas. Ainda que eu não prestasse muita atenção na altura, ficava a marca inigualável de ação, por vezes trapalhona, de um Ranger do Texas que, mal aparecia, e tal como o meu pai diz, “vinha pronto para partir a boca a alguém”. Poucas palavras, muita ação e pontapés, numa história completamente estereotipada e datada que, apesar de ainda hoje ser rotineiramente repetida pela RTP Memória, já não se coaduna com as séries modernas.

Seria, portanto, de esperar que o reboot de «Walker» fosse completamente diferente do original, logo à partida. Aliás, a criação de um spin-off era em si própria redundante, devido à impossibilidade aparente de recriar um universo tão marcante no nosso imaginário. Quando a CW assumiu o comando da adaptação, uma coisa era praticamente certa: vem aí drama familiar… e, depois de vistos os dois primeiros episódios, já não restam dúvidas. «Walker» é uma série com vida independente, mais focada nas relações entre personagens e nas dinâmicas parentais e profissionais; que pouco ou nada tem a ver com o original, e cuja ligação apenas serve de castigo (pesado). Não obstante, a série já viu garantida a sua segunda temporada.

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Walker — “Four Stones in Hand” — Image Number: WLK115fg_0002r — Pictured: Keegan Allen as Liam Walker — Photo: The CW — © 2021 The CW Network, LLC. All Rights Reserved.

Assim que vemos a criadora Anna Fricke («Being Human») mostrar a “mão” num instante, revelando de imediato o core da narrativa, uma coisa de duas pode acontecer: ou entrega o jogo e este perde o interesse, ou desenvolve um bluff brilhante que arrebata totalmente a audiência. A quantidade de voltas e reviravoltas que acontece nos 45 minutos iniciais peca por excesso: em 4 minutos uma personagem é apresentada e morre (sendo o mistério principal da season 1), o protagonista Cordell Walker (Jared Padalecki) tem pelo menos três crises existenciais, há uma cena de rebeldia adolescente, a introdução (com conflito e resolução) da nova parceira (Lindsey Morgan), entra uma personagem que facilmente se percebe que será o novo interesse amoroso, a deportação torna-se um tópico, tem até lugar uma divagação de foco religioso (relacionada com a educação dos miúdos de quem Walker não quis saber durante 11 meses) e cria-se um intenso drama familiar em torno dos avós. É como que confecionar um prato atirando tudo ao mesmo tempo, não dando margem para apurar ingredientes ou intensificar sabores.

O elenco, não sendo excecional, conta com nomes com créditos firmados, como Molly Hagan, Keegan Allen, Coby Bell, Mitch Pileggi e Odette Annable.

Walker
Walker — “A Tale of Two Families” — Image Number: WLK112b_0231r — Pictured (L-R): Coby Bell as Captain Larry James and Lindsey Morgan as Micki Ramirez — Photo: Rebecca Brennen/The CW — © 2021 The CW Network, LLC. All Rights Reserved.

Além de deixar muito a desejar como pai, por mais injusto que tal possa soar, Cordell Walker é uma sombra da personagem que o inspirou. Ainda que usasse muito menos palavras, se há coisa que não escapava a Chuck Norris era lealdade e responsabilidade, nomeadamente para com as pessoas mais próximas. Algo que, agora em «Walker», não passa de uma miragem. Perante a morte da mulher (interpretada pela mulher do ator, Genevieve Padalecki), o Ranger entrega-se ao trabalho undercover e ausenta-se por períodos demorados da vida dos filhos; e não repete a graça um ano depois porque vê a luz e muda de ideias.

Fica o conselho: se tiverem curiosidade de ver a série, façam-no sem expetativas e, sobretudo, sem serem motivados pelo saudosismo da série original. Encarem «Walker» como uma série de identidade própria, desligada de todo e qualquer universo já existente no pequeno ecrã. Só dessa forma a série, que tanto deve à original, não deverá nada à audiência; que assim lhe poderá dar uma oportunidade real.

Texto originalmente publicado aqui

 

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