Foundation: a (matemática) vitória da Ciência na ficção

A saga Foundation, de Isaac Asimov, ganhou finalmente uma adaptação ao pequeno ecrã pela mão do criador David S. Goyer (Da Vinci’s Demons, FlashForward) na Apple TV+. Hoje saem os dois primeiros episódios.

Quando uma saga popular de ficção científica conquista lugar na tela, as opiniões dividem-se: muitos ficam ansiosos, outros criticam a adaptação por acharem que não irá fazer justiça ao original. O criador David S. Goyer resolve parcialmente o problema ao assumir a sua «Foundation» como uma história inspirada na original, mas com algumas alterações aprovadas pelos descendentes do autor, que procura criar uma identidade própria no universo fantástico do streaming. Uma das mudanças mais impactantes é, nomeadamente, o surgimento de um vasto leque de personagens femininas, que assumem uma importância significativa na narrativa.

Hari Seldon (Jared Harris) tem a cabeça a prémio ao desafiar a liderança e sobrevivência do Império, anunciando a sua queda com base numa análise matemática e probabilística. A psico-história (psycohistory) baseia-se na matemática e em dados científicos para antecipar problemas coletivos – os comportamentos individuais colocam uma forte margem de imprevisibilidade –, e apontam para uma catástrofe impossível de evitar que vai destruir completamente a hegemonia Império Galático.

Com a condenação anunciada, parte da solução prevista por Seldon reside em deixar uma Foundation (Fundação Enciclopédica), um conjunto de informação importante para que as gerações do futuro tenham acesso aos principais acontecimentos e descobertas dos antepassados. É este o ponto de partida de uma história que quer ir muito para lá disso.

Gaal Dornick (Lou Llobell) mantém-se como uma figura central de «Foundation», mas a personagem é agora feminina, ao contrário do que acontecia nos livros. A jovem, em fuga de um mundo que não aceita a Ciência, muda-se para Trantor para trabalhar com Seldon. No entanto, esta nova jornada da sua vida revela-se muito diferente do que ela esperava, pelo que raramente se vê envolvida num conflito a larga escala com a autoridade do Império. É também a perspetiva dela que é dada ao espectador, que vai assim conhecendo Trantor, numa primeira fase, e depois a missão que se segue; em diferentes tempos e mundos.

A ação abrange a Galáxia, controlada por uma linha de clones do Imperador (Dawn, Day, and Dusk) – também uma diferença em relação à saga-mãe –, que não tolera a sua própria efemeridade. «Foundation» cria uma história complexa, abrangente e crítica, que estabelece uma consistente linha temporal e narrativa, na qual se vão basear os acontecimentos mais entusiasmantes da trama. Os dois primeiros episódios estão disponíveis no streaming Apple TV+.

No elenco destacam-se, além dos já mencionados, Lee Pace, T’Nia Miller, Terrence Mann, Alfred Enoch, Laura Birn e Leah Harvey, entre outros.

 

Texto originalmente publicado aqui

 

Sara Quelhas

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