Allen v Farrow: documentário reforça culpabilidade

Há quase 30 anos que o final abrupto do romance entre Woody Allen e Mia Farrow tem feito correr muita tinta na imprensa. O alegado abuso do cineasta à filha adotada Dylan ainda divide opiniões e Allen nunca foi dado como culpado, ainda que esteja longe da popularidade de outros tempos. «Allen v Farrow» estreia amanhã na HBO Portugal.

Apesar de estarmos perante uma questão com mais de 20 anos, o facto de nunca ter resultado (definitivamente) em culpa ou inocência, ficando no meio-termo, fortalece o interesse em torno de «Allen v Farrow». O documentário da HBO, dividido em quatro partes, coloca no centro da discussão a alegada vítima, Dylan, e a sua mãe e ex-namorada do realizador e argumentista Woody Allen, Mia Farrow. Já Allen “visita” a minissérie através de áudios e entrevistas antigas, bem como pela sua obra, o que permite traçar a sua personalidade e reforçar indícios de relações com menores de idade ao longo das décadas.

No entanto, desengane-se quem acha que se trata apenas de dar palco a um dos lados desta história. Há recurso a diversas provas, gravações antigas da família e outros pormenores que, no conjunto, levantam pelo menos a dúvida em relação à inocência de Woody Allen. Numa altura em que o cineasta está longe de ter a recetividade de outrora, este documentário pode atirá-lo de vez para fora dos principais “palcos” do cinema.

Depois de sempre ter dado o controlo a Woody Allen, durante e depois da relação, Mia Farrow reclama para si a oportunidade de contar o seu lado da história. Era ele a celebridade mega-popular com direito fácil a tempo de antena. Enquanto a atriz recorria a terapeutas e aos meios ao seu dispor, o cineasta defendia-se na imprensa, descredibilizando, assim, as alegações que pairavam à sua volta. É preciso ter também presente que, ao contrário do que acontece agora, muitos titãs da indústria conseguiram perpetuar abusos durante décadas com conhecimento de pares e não só, sem qual influência na sua carreira. Não havia, ainda, a mesma atenção e preocupação com este tipo de casos. Algo que mudou, sobremaneira, com o caso polémico de Harvey Weinstein.

Mas há algo que incomoda: muitos dos factos trazidos à luz pelo documentário «Allen v Farrow» estão à nossa disposição há décadas, tendo sido quase sempre tratados com leviandade pela indústria e pelos media. Fortaleceu-se a imagem de loucura de Mia Farrow, descredibilizando assim as acusações desta e da filha adotiva, Dylan, que foi apontada como manipulável e mentirosa. Agora, a história poderá (finalmente) ser outra. Convém, ainda assim, não esquecer que o julgamento derradeiro não será feito pela audiência, mas poderá influenciar (de vez) a aura de inocência que, até recentemente, pairava sobre Allen.

Muitas das histórias familiares, contadas por Dylan, Mia e outras testemunhas, são desconfortáveis para o espectador. E são desconfortáveis também para quem agora as conta e atribui, por fim, o peso que efetivamente têm. Apesar de vincar no final de cada episódio que Woody sempre negou as acusações, o documentário é bastante claro em mostrar o que acredita, e porquê. Cabe, então, à audiência tirar as suas próprias conclusões.

«Allen v Farrow» é uma minissérie documental realizada por Kirby Dick e Amy Ziering. O primeiro episódio tem estreia marcada para amanhã, 22, na HBO Portugal.

 

Texto originalmente publicado aqui

 

 

Sara Quelhas

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