Estado: numa relação complicada com O Mecanismo

Ter uma série original brasileira focada no escândalo Lava Jato, criada por José Padilha e com Selton Mello no papel de maior destaque? Vou já ver! Ah… Afinal é ficção. «O Mecanismo» prometia, e muito, graças ao marketing e parecia destinada a um sucesso estrondoso: mas tudo começa mal, logo no primeiro frame de texto – onde se afasta do documental e se assume como obra totalmente criativa.

Com várias séries originais Netflix já anunciadas, o Brasil lançou hoje, 23, a sua segunda aposta para o serviço de streaming (depois de «3%»), «O Mecanismo». A promoção da série criada por José Padilha, o realizador dos filmes da «Tropa de Elite», aguçou a curiosidade do público global, uma vez que apontava diretamente ao maior escândalo financeiro da história do nosso país irmão. Relativamente recente, ainda que longe de ser um tópico consensual, a polémica baseada na lavagem de dinheiro, e corrupção em diversos cargos de importância, é meio caminho andado para captar audiência. E a outra metade?

Apesar de a estrutura de «O Mecanismo», no geral, me interessar e me cativar enquanto espectadora, há outra parte de mim que reprova a abordagem ao assunto. Se é sobre o Lava Jato, porquê a ascensão de Marco Ruffo (Selton Mello) ao estatuto de herói, o polícia ficcional que começa a desmontar a conspiração, se nem sequer se trata de uma personagem factual? Será possível, para mim, separar a qualidade da narrativa da exigência de outro tipo de aposta sobre a Lava Jato? A julgar pelas opções que se vão sucedendo, nomeadamente nos primeiros episódios, a missão estará ao nível da saga do Tom Cruise.

Numa altura tão disputada para os estúdios televisivos, onde os hiatus são coisas do passado e a peak season dura 12 meses por ano, a tentiva de fazer a diferença começa logo no marketing da série. Além das baterias apontadas à polémica denominada Lava Jato, que continua a marcar a atualidade do país e até do mundo, a série poderá ter ‘aproveitado’ a discussão recente sobre o homicídio de Marielle Franco. A política e a justiça brasileiras têm os holofotes sobre si e, embora «O Mecanismo» contribua para a análise, dificilmente trará alguma coisa de novo em termos factuais.

Moral da história, estou numa relação complicada. Se, por um lado, reconheço a qualidade de realização e argumento da série; por outro, não sou capaz de esquecer a necessidade (que sinto) de uma vertente mais documental, apoiada em pessoas reais e acontecimentos concretos. Poderá, certamente, ser cedo para reescrever de forma minuciosa um acontecimento de tamanha envergadura e tão próximo temporalmente, mas então porquê chamar à intriga central Lava Jato? Porque não apelidar o escândalo com outro nome e fazer algo mais independente da história real? Marketing, sempre o maldito do marketing e das expetativas que ele alimenta…

José Padilha

 

Sara Quelhas

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