Normal People: as vantagens de ser invisível

A HBO Portugal disponibiliza hoje, 12, todos os episódios de «Normal People», uma adaptação para TV da obra de sucesso assinada por Sally Rooney. Já vi os três primeiros episódios e escrevo sobre isso de seguida.


Há algo de incrivelmente subtil e poderoso na história que «Normal People» quer contar. Embora se trata de uma narrativa adolescente/jovem adulta, há muitos outros temas que vêm à tona graças ao amor entre Marianne (Daisy Edgar-Jones) e Connell (Paul Mescal). Mesmo que alguns não sejam totalmente explícitos e dependam do espectador – bem como do seu entendimento da sociedade e das suas dinâmicas.

Numa pequena localidade da Irlanda, Marianne e Connell são dois colegas de turma bastante diferentes, que poucas palavras trocam quando estão na escola. Ele é o jogador popular, enquanto ela é a rapariga irreverente e com poucos amigos, um alvo fácil para bullying e desprezo. No entanto, aproximam-se pelo facto de a mãe do rapaz fazer limpezas na casa de Marianne, o que os leva a criar, assim, uma maior proximidade.


Inesperadamente para eles (mas não para a audiência), os dois iniciam um romance, um apogeu ao primeiro amor entre pessoas de experiências e famílias diferentes. Tudo se complica desde logo, porque uma das “regras” é manter o caso em segredo… Mas até quando serão capazes de o fazer?

Prestes a iniciarem a vida universitária, Connell e Marianne vivem o seu romance com a euforia de quem não tem nada a perder. Contudo, quando a questão se torna mais séria e complexa, também o argumento evolui para a acompanhar.

Mais do que um drama romântico que apela ao público mais jovem, «Normal People» aposta numa linguagem cuidada e numa construção dinâmica das suas camadas imediatas e também secundárias, nomeadamente de descrição social. Antes de os conflitos acontecerem, os dados já se vão movendo para o antecipar, jogando com os preconceitos incutidos na nossa própria experiência em sociedade. A diferença reside sobretudo no lado da “barricada” que adotamos.

Naturalmente, esta não é uma série para todos. Apesar de ser mais complexa do que uma série de adolescentes, a verdade é que nem todo o público terá a “paciência” necessária para ultrapassar a primeira fase mais inebriada da trama. Fica a certeza, no entanto, de que a viagem tem tudo para valer a pena.

«Normal People» está nomeada a quatro Emmys nas categorias de série limitada: melhor ator, melhor realização, melhor argumento e melhor casting.

 

Texto originalmente publicado na Metropolis

 

Sara Quelhas

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