Beartown: um drama poético a partir do hóquei no gelo

Assisti, em primeira mão, à nova minissérie da HBO Portugal, «Beartown». A série sueca tem estreia marcada para amanhã, 18, no serviço de streaming.

Há uma sensação de desconforto desde o momento em que as paisagens suecas, cobertas de neve, invadem o ecrã. A banda sonora intensifica ainda mais a carga emocional, pesada, de «Beartown», bem ao estilo de vários dramas nórdicos. A fotografia e os planos, nomeadamente em exteriores, são a cereja no topo do bolo. Esta minissérie da HBO Europe é baseada na obra com o mesmo nome de Fredrik Backman, publicada em 2016.

Mal o piloto começa, o sinal de partida é dado à ação através de um tiro. Quem é o predador e quem é a presa?

Peter Andersson (Ulf Stenberg) regressa à terra natal de Björnstad [Beartown em inglês] para assumir o comando da equipa sénior de hóquei no gelo. À imagem do resto da localidade, também o grupo está em decadência, longe de devolver a Beartown a glória que as suas gentes tanto ambicionam. Quando o conjunto de adultos parece destinado a falhar, Peter encontra esperança na equipa júnior, que tem como estrela principal Kevin (Oliver Dufåker).

No entanto, esta não é a típica história romantizada sobre desporto. Há um lado muito humano, cru, que retrata as dificuldades de uma família que se tenta reencontrar depois da tragédia. Vindos do Canadá, depois de terem perdido um filho, Peter e a mulher Mira Andersson (Aliette Opheim) procuram refazer a vida na companhia dos dois filhos. Um regresso a casa quase inglório, com Peter a ser visto como a estrela falhada que não cumpriu a carreira de sonho.

A sua filha Maya (Miriam Ingrid), já adolescente, fica encantada com Kevin e até o apoia nalguns momentos mais irredutíveis do pai, um ex-rival de Peter. Ela representa a segunda “equipa” da vida de Peter, sendo que será uma questão de tempo até o treinador se encontrar dividido entre as duas.

Quando a equipa de Beartown parece encontrar o caminho do sucesso, uma agressão inesperada muda completamente o rumo dos acontecimentos. Nessa altura, a localidade une-se mais do que nunca e, em sentido contrário, parece disposta a tudo para se ver livre de quem não seguir a “manada”. Ou de quem ameaçar o status quo estabelecido e solidificado em torno da arena de hóquei onde os habitantes tantas vezes se concentram.

Ao longo de cinco episódios, «Beartown» vai mantendo a estrutura rígida, muito apoiada na tensão emocional e social entre personagens. Que, por sua vez, é transportada para fora da tela pela música instrumental e pelas quebras de diálogo/acontecimentos. A construção da trama é muito literária e poética, recorrendo mais à simbologia do que à execução. Há uma mensagem clara e subjacente que transpõe os limites do pequeno ecrã, e é essa que a minissérie preserva em relação ao livro que a inspirou. Uma mensagem que mostra a sociedade à sua pior luz.

 

Texto originalmente publicado aqui

 

Sara Quelhas

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