Arrested Development: perdoar o mal que nos faz pelo bem que nos sabe

A METROPOLIS teve acesso em primeira mão à nova temporada, que estreia dia 29, terça-feira, na Netflix. A quinta temporada de «Arrested Development» está dividida em duas partes, com os últimos oito episódios a chegarem mais tarde.

À medida que se aproximava o regresso, o marketing de «Arrested Development» sofreu um volte-face inesperado. Assim como aconteceu com «Transparent», a eventual qualidade foi ofuscada pela polémica em torno de Jeffrey Tambor. O ator foi um dos primeiros nomes a ser falados aquando do ‘rebentar’ da polémica em torno de Harvey Weinstein, a par de Kevin Spacey, e uma nova denúncia da colega de elenco Jessica Walter só veio complicar a sua situação. Sobretudo quando o elenco masculino, nomeadamente Jason Bateman, desvalorizou o possível caso de violência verbal, em entrevista ao The New York Times, e os fãs mostraram o seu descontentamento. Entre as consequências, está o cancelamento da tour pelo Reino Unido.

Será difícil antecipar o impacto que o caso Tambor vai ter no que diz respeito ao futuro da série – «Transparent» foi cancelada – e, no caso de renovação, resta saber se as portas estão fechadas para o ator, que interpreta duas personagens. Não obstante, a polémica de bastidores poderá ter também um efeito ‘benéfico’ para as audiências, já que poderá ofuscar, ainda que parcialmente, as críticas à escrita preguiçosa que pauta a quinta temporada. Após uma quarta temporada que dividiu opiniões, com um formato partido e focado nas personagens separadamente (para conciliar as agendas dos diferentes atores), a nova incursão nas aventuras da família Bluth volta ao formato original. Em demasia: além da reciclagem estrutural (aceitável), a série recupera muitas piadas antigas e gastas, castigando o argumento.

Cancelada em 2006, a série foi repescada em 2013 pela Netflix, que soube aproveitar o buzz em torno de «Arrested Development» e fez os mínimos para garantir a continuidade. O público está mais do que estabelecido e, por mais que a qualidade tenha tendência a cair, a ligação estabelecida com as personagens força o reencontro. Um pouco ao jeito de um amigo distante que, apesar de ter andado em parte incerta durante anos, continua a ser recebido com um abraço. Mas será que isso chega? Não devia. É preciso mais do que as capacidades adivinhatórias da série – que se focou num muro entre os Estados Unidos e o México ainda antes de Donald Trump o fazer no mundo real – para justificar a aposta milionária do serviço de streaming.

Poderá aceitar-se que uma série estreada há 15 anos fique ‘parada’ no tempo e viciada nos mesmos traços de personalidade da família? Não é essa, afinal, a receita basilar de grande parte das comédias que invadem a televisão nos dias de hoje? Será justo exigir mais a «Arrested Development»? Sim, porque a série criada por Mitchell Hurwitz em 2003 nos habituou a mais. Ano após ano. Foi isso, em parte, que justificou a repescagem da Netflix sete anos depois do fim, e numa altura em que os conteúdos inéditos eram a aposta principal. Como tal, não se pode (ou não deve) conformar com ser apenas mais uma série, até porque o intervalo temporal de cinco anos entre temporadas exige mais. Os fãs merecem mais.

Texto originalmente publicado na Metropolis.

 

Sara Quelhas

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